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Amanda Neves
P S I C O L O G A 

Quando repetimos dinâmicas familiares no trabalho: uma leitura psicanalítica sobre vínculos e posições subjetivas 

  • Foto do escritor: Amanda Neves
    Amanda Neves
  • 3 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura


O ambiente de trabalho costuma ser visto como um espaço exclusivamente profissional. No entanto, a forma como nos relacionamos ali, com chefes, colegas, grupos e hierarquias, muitas vezes revela repetições de vínculos que tiveram origem muito antes, dentro da própria história familiar.


     Do ponto de vista psicanalítico, não chegamos ao trabalho como “páginas em branco”. Levamos conosco modos de se posicionar, de responder ao outro, de lidar com autoridade, conflito e reconhecimento que foram aprendidos nas primeiras relações da vida. É por isso que, sem perceber, podemos reproduzir no trabalho dinâmicas afetivas profundamente enraizadas na infância. 


O que costumamos repetir? 


Relação com figuras de autoridade 

Chefias podem assumir simbolicamente o lugar de pais ou responsáveis, ativando comportamentos como: 

  • necessidade de aprovação; 

  • medo de decepcionar; 

  • dificuldade em estabelecer limites; 

  • submissão excessiva; 

  • postura defensiva ou desafiadora. 

Não é sobre a chefia em si — é sobre o significado afetivo atribuído a ela. 


• Grupos que lembram papéis familiares 

Muitas equipes reproduzem estruturas semelhantes às da família: o “responsável”, o “cuidador”, o “que resolve conflitos”, o “que tenta unir todos”, o “que se isola”. O sujeito se identifica inconscientemente com papéis conhecidos. 


• Repetição de padrões de cuidado ou abandono 

Alguém que precisou “cuidar de todos” na família pode repetir esse movimento no trabalho, assumindo responsabilidades que não são suas. Da mesma forma, quem vivenciou negligência pode sentir dificuldade em confiar e delegar. 


• Medo de errar e perfeccionismo 

Frequentemente ligados a ambientes familiares rígidos, essas características reaparecem no trabalho como autocobrança intensa, ansiedade e sensação de estar sempre “devendo algo”. 


• Sensibilidade exagerada a críticas 

Quando críticas eram vividas como ataques na infância, o ambiente profissional pode despertar a mesma vivência emocional, mesmo quando o contexto é outro. 


Por que isso acontece? 


     A psicanálise entende que os primeiros vínculos moldam a forma como nos relacionamos com o mundo. As figuras familiares são nossos primeiros modelos de autoridade, afeto, conflito, reconhecimento e limite. Quando entramos em novos contextos, como o trabalho, buscamos inconscientemente esses mesmos padrões, porque eles são conhecidos e, de certo modo, “seguros”, mesmo quando são dolorosos. 

A repetição não é escolha racional, é um modo de funcionamento psíquico. 


Perceber essas repetições é um processo de autonomia emocional 


     Reconhecer que certas dores e dificuldades profissionais têm raízes afetivas permite que o sujeito se posicione de forma mais livre. É nesse ponto que muitas relações de trabalho deixam de ser fonte de sofrimento e se tornam espaços de construção e autonomia. 


Como a análise pode ajudar? 


A análise oferece um espaço de escuta para compreender: 

  • quais padrões estão sendo repetidos; 

  • de onde eles surgem; 

  • por que se ativam em determinados contextos; 

  • e como construir novas formas de se relacionar com autoridade, grupos e limites. 


     Ao elaborar essas repetições, o sujeito pode transformar sua experiência no trabalho, ocupando posições menos determinadas pelo passado e mais alinhadas ao próprio desejo. 

 
 
 

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