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Amanda Neves
P S I C O L O G A 

Autocuidado real x autocuidado romantizado: uma reflexão psicanalítica sobre o cuidar de si

  • Foto do escritor: Amanda Neves
    Amanda Neves
  • 29 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

     Nos últimos anos, o conceito de autocuidado ganhou espaço em redes sociais, campanhas e movimentos culturais. Entretanto, embora o termo tenha se tornado popular, seu significado muitas vezes é reduzido a práticas estéticas, rotinas de bem-estar ou momentos de descanso pontuais. Essa visão, apesar de válida, ainda é parcial. É o que chamamos de autocuidado romantizado

     Do ponto de vista psicanalítico, o autocuidado envolve algo muito mais complexo do que “fazer algo agradável para si”. Cuidar de si implica, sobretudo, um movimento de responsabilidade interna, de escuta e de sustentação da própria vida psíquica, o que compõe o autocuidado real.


O autocuidado romantizado: acolhedor, mas insuficiente  

     O autocuidado romantizado se apoia em ações externas: um banho relaxante, um dia de spa, uma pausa no trabalho, uma atividade prazerosa. Esses momentos são importantes, mas não necessariamente alcançam o núcleo do sofrimento emocional. 

Frequentemente, esse tipo de autocuidado funciona como uma resposta rápida a um mal-estar profundo que permanece não simbolizado. Ele alivia, mas não elabora. Ele pausa, mas não transforma.

     Em alguns casos, a busca por práticas de “bem-estar imediato” pode até se tornar uma forma de evitar conflitos internos, funcionando como mais uma camada de exigência: “Eu preciso me sentir bem o tempo todo.” 


O autocuidado real: trabalho interno e elaboração 


     O autocuidado real se sustenta em outra lógica: a da escuta de si, da responsabilidade emocional e da capacidade de suportar o que se sente. É um cuidado que não se limita ao prazer momentâneo; ele toca naquilo que Freud chama de trabalho psíquico, o processo de elaborar, simbolizar e dar sentido à experiência. 

Enquanto o autocuidado romantizado busca alívio, o autocuidado real busca consistência

Alguns exemplos de autocuidado real: 

  • reconhecer limites antes de chegar ao colapso; 

  • estabelecer fronteiras nas relações, mesmo quando isso é difícil; 

  • permitir-se sentir tristeza sem obrigatoriedade de “melhorar rápido”; 

  • buscar ajuda profissional quando necessário; 

  • sustentar decisões que protegem o próprio bem-estar, mesmo que frustrem expectativas externas; 

  • olhar com honestidade para os próprios padrões repetitivos. 

     Nesse sentido, autocuidar-se é menos sobre “fugir da dor” e mais sobre ter condições internas para atravessá-la

     “Não há manual para viver”: o que funciona para um, não necessariamente funciona para outro. O autocuidado real exige que o sujeito se implique na própria história, reconhecendo seu modo singular de existir.

Autocuidado não é perfeição — é compromisso com o próprio desejo 

O cuidado verdadeiro se afasta de idealizações e se aproxima da autenticidade. Ele reconhece que: 

  • nem sempre é agradável, 

  • nem sempre traz recompensa imediata, 

  • muitas vezes implica renúncias, 

  • e quase sempre envolve trabalho interno. 

     O autocuidado real é, então, uma prática cotidiana de sustentar a si mesmo sem se abandonar para caber nas exigências externas, ou para cumprir um padrão idealizado de “bem-estar”. 

Como a análise pode ajudar? 


     A psicoterapia psicanalítica oferece um espaço onde é possível compreender o que se repete, o que dói e o que pede cuidado de fato. Ao mergulhar na própria história e elaborar conflitos internos, o sujeito passa a desenvolver um autocuidado mais profundo, mais verdadeiro e menos guiado por idealizações. 


     O autocuidado real nasce da possibilidade de escutar a si mesmo, e de se responsabilizar pela própria construção subjetiva. 

 
 
 

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