“Estou atrasado na vida”: quando a comparação se torna um marcador de valor Uma reflexão psicanalítica sobre tempo, desejo e ideal
- Amanda Neves

- 27 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
A sensação de “estar atrasado” em relação aos colegas é cada vez mais comum entre jovens adultos. Em um mundo onde a vida do outro está sempre visível, conquistas, viagens, carreira, relacionamentos, é fácil transformar essas referências em uma régua para medir a própria trajetória.

Pela psicanálise, entendemos que esse incômodo não surge apenas da comparação em si, mas do encontro com um ideal interno: uma imagem de como “deveríamos” ser ou do que “já deveríamos ter alcançado”. Freud aponta que esse ideal se forma a partir das expectativas do ambiente em que crescemos, família, cultura, escola, e da forma como fomos reconhecidos ao longo da infância.
Quando essa imagem ideal é muito rígida, qualquer diferença entre a vida real e o que imaginamos como “certo” pode gerar angústia e sensação de fracasso.
Lacan aprofunda essa reflexão quando afirma que “o desejo do homem é o desejo do Outro”. Em outras palavras, antes de sabermos o que queremos, aprendemos o que deveríamos querer. E muitas vezes a sensação de atraso emerge exatamente do confronto entre o que é esperado e o que é possível viver agora.
É nesse ponto que surgem sentimentos de inadequação, vergonha, paralisia e urgência. O sujeito não sofre pela própria história, mas por acreditar que existe apenas uma maneira “correta” de caminhar, e que ele não está nela.
Mas o tempo psíquico não é linear. A vida não se organiza em etapas obrigatórias. Cada sujeito tem seu próprio ritmo, atravessamentos, recursos e possibilidades. A ideia de atraso só existe quando nos afastamos demais da própria singularidade.
Como a análise pode ajudar?
A psicanálise oferece um espaço onde esses ideais podem ser questionados, elaborados e reposicionados. Ao compreender de onde vem a sensação de atraso, e quais expectativas ela carrega, o sujeito passa a construir uma relação mais livre com o próprio tempo, abrindo espaço para escolhas mais autênticas e menos determinadas pelo olhar do outro.



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